Diante de um adversário muito aplicado taticamente e jogando também contra uma baixíssima temperatura no estádio Ellis Park, em Johanesburgo, a Seleção Brasileira encontrou uma saída pela direita e venceu a Coreia do Norte por 2 a 1 para somar seus primeiros três pontos pelo Grupo G da Copa do Mundo da FIFA África do Sul 2010, nesta terça-feira.

Foi um exercício de paciência para os comandados de Dunga, que precisaram de toda a calma do mundo para encontrar alguma brecha contra o rival asiático, que não jogava uma partida do torneio desde a Inglaterra 1966.

Em um confronto que colocava o primeiro colocado do Ranking Mundial da FIFA/Coca-Cola diante do 105º colocado, essa drástica diferença demorou para ser evidenciada. O Brasil procurou inverter a bola de uma ponta a outra, tocando de pé em pé, rodando seus atletas, mas a retranca norte-coreana estava atenta e bem armada.

Depois de um primeiro tempo em que se dedicou a manter a posse de bola e procurar o melhor atalho para superar o bloco de defensores norte-coreanos, o Brasil enfim encontrou o caminho na segunda parte. A saída foi buscar o jogo de seus laterais. Aos dez minutos do segundo tempo, Maicon apareceu bem para esse desafogo: recebeu em velocidade de dentro da área e, quase sem ângulo, marcou um belo gol que deixa sua equipe na liderança da chave - já que Costa do Marfim e Portugal empataram mais cedo, sem gols. Elano, depois, completou o placar em jogada de dinâmica semelhante: passe profundo de Robinho e, da direita, o chute cruzado.

A um minuto do fim do tempo regulamentar, os norte-coreanos ainda conseguiram fazer o que parecia impossível e bateram eles próprios a meta de Júlio César: Ji Yun Nam aproveitou um passe de cabeça após lançamento longo e, de esquerda, bateu com precisão na saída do goleiro brasileiro.

O esforço compensa
O Brasil começou o jogo tentando imprimir um forte ritmo. Nos primeiros dez minutos, Elano e Robinho tentaram finalizações de fora da área, para testar a retaguarda norte-coreana, que, por vezes, se postava com ao menos oito jogadores de linha da intermediária para trás, e apenas o capitão Hong Yong Jo e o promissor Jong Tae Se um pouco mais à frente, próximos à linha do meio-campo esperando oportunidades de contra-ataque. Diante de uma defesa tão forte como a montada por Dunga, era pouco para se criar uma ameaça.

Por outro lado, esse posicionamento em bloco em frente a sua área ajudava a conter as iniciativas ofensivas da Seleção, a despeito do talento individual de jogadores como Kaká e Robinho e a força física e presença de Luís Fabiano. Em uma das poucas vezes que o time conseguiu passar por essa retranca na primeira metade do primeiro tempo, Robinho girou com a bola na área, aos 21 minutos, mas acabou batendo fraco, para defesa do goleiro Ri Myong Guk.

Outro lance individual de Robinho gerou uma chance de gol aos 34 minutos, quando o atacante do Santos exibiu seu controle de bola na área, trabalhou como pivô e passou para Michel Bastos na esquerda. O lateral chutou forte e a bola passou próxima ao ângulo esquerdo.

Era preciso paciência, muito toque de bola, girando-a de um lado para o outro à procura de algum espaço em direção ao gol ou mesmo algum desequilíbrio defensivo do rival que pudesse proporcionar um bom cruzamento ou oportunidades de bola parada, que é um ponto forte da atual Seleção.

Saída pela direita
A primeira dessas chances veio aos cinco minutos do segunda tempo, quando Kaká foi derrubado próximo à meia-lua, em falta frontal para o Brasil. Michel Bastos bateu por cima da barreira, com efeito, mas a bola saiu à direita.

No ataque seguinte, após boa troca de passes, Kaká fez um belo passe de peito para Robinho, que chutou de primeira, rasante, assustando o goleiro Myong Guk. A bola passou rente à trave direita, na primeira combinação entre os craques, e um bom sinal do que estava por vir.

Pouco depois, saiu o gol de abertura do placar. Elano recebeu na meia direita e deu um passe na medida para Maicon, que se projetava de modo fulminante por trás. O lateral, quase sem ângulo, chutou forte, com estilo. A bola passou entre o goleiro e a trave e estufou a rede em sua parte lateral.

O segundo gol também saiu pela direita. Robinho cortou em diagonal com a bola pela esquerda e fez uma precisa assistência para Elano, que entrou na área e chutou cruzado, aos 27 minutos. O Brasil dominou, criou mais chances e, quando tudo parecida decidido, ainda viu a Coreia do Norte diminuir a vantagem com Ji Yun Nam - o que, para os asiáticos, soou quase como uma vitória.

Apesar da baixa temperatura, o estádio Ellis Park foi envolvido por uma grande atmosfera, com as arquibancadas coloridas de verde e amarelo, que valem pelas cores que acompanham a Seleção pelas Copas e também para a equipe local, os Bafana Bafana. O primeiro teste para os pentacampeões pode não ter sido contra um rival tradicional, mas certamente foi inóspito o bastante para fazer a torcida brasileira passar da primeira rodada com um sentimento: alívio.